quinta-feira, novembro 30, 2006

Relações Peninsulares Ibéricas

A Reflexão , de Agostinho da Silva, desperta o leitor, para um novo ponto de vista sobre a História, não só da portuguesa, mas de toda a História da Humanidade, do resto do Mundo, do Mundo que Portugal cristianizou. Destaca as façanhas do corajoso povo luso, mas sabe também identificar o "o quê" e "o quando" Portugal errou, impedindo-nos de realizar o ainda desejado V Império, como Camões e, especialmente, Fernando Pessoa o frisaram:

“(..)Cumpriu-se o mar, o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!”

In “O Infante”- A Mensagem - Fernando Pessoa

A obra gira em torno de uma questão fulcral: hispanizar a Europa e o Mundo ou europeizar a Espanha?

A resposta a este dilema está em situarmo-nos em face de nós próprios em vez, de nos situarmos em face da Europa, pois a verdadeira cultura, a verdadeira humanidade, o verdadeiro futuro do Mundo não é aquele que está para lá dos Pirinéus, excluindo o Sul de Itália e a Península Ibérica, e com o devido respeito por esse povos, isso a que se chama Europa, cheia de gente ordenada e filosófica, não será muito mais do que isso, pois sempre foi incapaz de libertar desse feitio utilitário e materialista, prático e mecânico que contagiou a América do Norte; curiosamente, o único continente onde os portugueses não deixaram uma marca profunda, pois creio que se tal tivesse acontecido, concerteza que a América do Norte não seria hoje o espelho desta Europa além Pirinéus.

E mais, o que Portugal fez de maior não foi nem os descobrimentos, nem a conquista, foi ter resistido a Castela; através de muito sangue Portugal conseguiu manter as suas fronteiras e a sua independência, condicionando para sempre o rumo e a História do Mundo e da Humanidade, e deste ponto de vista, a batalha de Aljubarrota atinge proporções de uma das mais importantes batalhas da Humanidade.

(Luís M. Carapinha - 1999 )

1º Dezembro em 2006

Nas palavras do ex-reitor da Universidade de Évora, Prof. Dr. Manuel Ferreira Patrício:
«O Estado Português nasceu fundamentalmente do confronto com Castela. Portugal sempre o soube, Castela nunca o esqueceu e pode dizer-se que nunca abandonou, no fundo da sua consciência, a vontade de criação de um Estado único na Península, sob sua égide...momentos sensíveis foram, no passado, a crise de 1383-85 e a crise de 1580. O momento actual é, de novo, de crise. Portugal passa por um momento difícl de afirmação política, na sequência da perda do império colonial, das vicissitudes da instauração da democracia e da integração da União Europeia. Não é visível o projecto português, nem uma política portuguesa de afirmação. Ao lado, a Espanha dá sinais de vitalidade....Portugal inteiro está à venda[vidé fotografia anexa]. Os espanhóis vendem mais barato lá, compram barato cá o nosso próprio território, apoderam-se das nossas empresas, montam estruturas à escala ibérica na lógica do Estado espanhol...actuam silenciosamente e eficazmente, trabalhando muito e falando pouco ou nada. O povo português está a ver, mas vai-se deixando ir. Até quando?»

1º DE DEZEMBRO DE 1640 - DIA DA RESTAURAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA

Tantos anos depois como o ano tem de dias continuamos a celebrar o 1.º de Dezembro de 1640 como o dia da Restauração da Independência de Portugal, depois de sessenta anos de união dos dois países ibéricos através de um Rei comum. Mas no século XXI, no quadro da União Europeia, faz hoje algum sentido Portugal celebrar esta data? Se não celebramos a data da independência? Ou a da batalha de Aljubarrota?
A mim me parece que celebramos hoje o Dia da Restauração por não haver coragem política para acabar com um feriado. Se for feito um inquérito de rua, mais de metade das pessoas com menos de 40 anos não sabem porque é feriado o dia 1 de Dezembro.
D. João, 8.º Duque de Bragança, é descendente directo, por via paterna, de D. Afonso, 1.º Duque de Bragança, nascido em 1370, filho bastardo de El-Rei D. João I e de Inês Pires, ou Peres, uma cristã nova.
El-Rei D. João I, responsável no último quartel do século XIV pela manutenção da independência de Portugal e iniciador da dinastia de Avis, também era um filho bastardo de D. Pedro I e de uma dama galega chamada Teresa Lourenço.
E existem dúvidas se D. António, Prior do Crato, que em 19 de Junho de 1580 foi aclamado em Santarém Rei de Portugal e em 25 de Agosto do mesmo ano foi derrotado em Alcântara pelas tropas de Filipe II de Espanha comandadas pelo Duque de Alba, seria também um filho bastardo do Infante de Portugal D. Luís, 5.º Duque de Beja, irmão de El-Rei D. João III, e de Violante Gomes, chamada a Pelicana.
O 8.º Duque de Bragança D. João sempre se comportou perante o seu Rei Filipe III de Portugal, IV de Espanha, de forma a mostrar-lhe lealdade. E Filipe IV de Espanha, além de o nomear 13.º Contestável de Portugal, o posto militar mais elevado no País a seguir ao Rei, convidou-o para o Governo do Ducado de Milão, o que ele recusou. Como recusou o comando de um corpo de tropas portuguesas que deveriam ir combater a insurreição da Catalunha. Preferia o seu Paço de Vila Viçosa, as caçadas, o ócio. Quando em 1637, por causa de agravamento de impostos, ocorreu em Évora a revolta do Manuelinho, que se propagou por todo o Alentejo e Algarve nesse ano e no seguinte, com as consequentes represálias e enforcamentos sumários dos revoltosos, o 8.º Duque de Bragança, D. João, manteve-se fiel a si mesmo e a Filipe IV de Espanha.
Em 1 de Dezembro de 1640 um grupo de quarenta fidalgos portugueses conjurados, chefiados por Antão Vaz de Almada, dirigiram-se ao Paço da Ribeira, sede do Governo de Portugal, e dando execução ao plano que previamente tinham elaborado, prenderam a Duquesa de Mântua, Margarida de Sabóia, vice-Raínha e representante em Portugal de Filipe IV de Espanha, então o mais poderoso Rei da Europa e mataram a tiro o seu secretário Miguel de Vasconcelos, defenestrando de seguida o seu corpo, numa imitação do que haviam feito alguns nobres checos em Praga em 1618, quando lançaram pela janela os representantes do Imperador Fernando II, dando assim início à Guerra dos Trinta Anos. De seguida e depois de se apoderarem dos pontos nevrálgicos da cidade, os conjurados proclamaram D. João, Duque de Bragança, como sendo o Rei D. João IV de Portugal. E ficaram a aguardar 15 dias que o Duque de Bragança considerasse que o golpe tinha tido êxito e aparecesse em Lisboa para ser coroado."
"D. João IV, «O Restaurador» ou «O Afortunado», que tentou ser «O Restituidor»
Diz dele M. Pinheiro Chagas, na sua História de Portugal:«No seu tranquilo egoísmo D. João IV entendeu de si para si que a revolução de 1 de Dezembro de 1640 se fizera unicamente para lhe dar um trono a ele e para se vindicarem os direitos de sua casa; a questão da independência do Reino, da sua autonomia, era uma coisa perfeitamente secundária, que podia pôr-se de parte logo que se conseguisse o principal que era reinarem os Braganças, e quanto mais largo fosse o trono melhor.»
Em 1650 D. João IV envia a Roma o seu diplomata predilecto, o jesuíta padre António Vieira, com a dupla missão dele ali apoiar os revoltosos napolitanos contra o Rei de Espanha, para o que levava seiscentos mil cruzados, e de tratar secretamente com diplomatas espanhóis do casamento do seu filho primogénito, o Príncipe D. Teodósio, então com dezasseis anos (e que viria a falecer em 1653) com a Infanta de Castela, filha de Filipe IV, fazendo sentir aos diplomatas espanhóis ser esse o único modo de reconstituírem a tão apetecida união ibérica.
Segundo ainda M. Pinheiro Chagas:«As condições do casamento seriam que, não tendo El-Rei de Espanha filho varão, como nessa época não tinha, lhe sucedessem D. Teodósio e a Infanta no Trono de Portugal e de Castela, mas que, se houvesse filho varão, reinariam os dois em Portugal, separado politicamente mas unido à Espanha por uma aliança defensiva e ofensiva. Se Filipe IV insistisse em não reconhecer a realeza de D. João IV, este abdicaria logo em seu filho e na Infanta. E assim a Espanha recobraria num só dia e sem derramamento de uma gota de sangue o que num dia só perdera, e que o cobraria melhor ainda do que antes de 1 de Dezembro de 1640, pois que, por meio deste casamento, Portugal com o seu império ultramarino se fundiria completamente com a Espanha, formando deveras um corpo compacto, e a condição única posta por D. João IV para efectivar essa união era que Lisboa fosse a capital dessa vasta monarquia.»
A oferta era tão generosa que os espanhóis desconfiaram e, não querendo negociar nada com os rebeldes portugueses nem com quem eles entendiam ter atraiçoado o seu Rei e usurpado o trono português, proibiram novos contactos com o padre António Vieira e até diligenciaram no sentido de o eliminarem.
Mário Domingues, no seu livro “D. JOÃO IV”, refere também esta sua diligência e diz:«Todos os historiadores portugueses verberaram, com maior ou menor indignação, esta diligência de D. João IV, verdadeiramente traiçoeira, de querer engrandecer-se e à sua Casa de Bragança, à custa de um povo que, tanto na metrópole como no Brasil, vertia generosamente o seu sangue para lhe sustentar a coroa.
«Com estas negociações secretas que, se chegassem a bom termo, equivaleriam a um golpe de morte na independência de Portugal, D. João IV descobriu completamente para a história a verdadeira feição do seu carácter: um egoísmo frio e pétreo, uma ambição sem limites, um desprezo revoltante pelos que se bateram por elevá-lo ao trono secretamente desejado, e morriam dia a dia para o manter, um apego de senhor feudal que não hesita em vender o seu feudo e as suas gentes em troca de um senhorio mais vasto e mais rendoso, que mais profundamente satisfizesse a sua vaidade pessoal.»
E Eduardo Vidal, no V volume da sua História de Portugal, narra também essa diligência de D. João IV, levada a cabo pelo padre António Vieira, e a concluir diz:«Convém saber que ao tempo em que se procurava reconquistar ou manter a independência, D. João IV, cedendo aos impulsos do seu natural egoísmo, tramava contra ela, mirando unicamente os interesses pessoais e dinásticos. Este Rei, que não tivera ânimo para se colocar à frente da Revolução emancipadora, e que só lhe aceitara as consequências, ainda que com a timidez de quem as não julgava perduráveis, este Rei desviava os olhos da nossa heróica defesa, da nossa constância no sacrifício, de tanta e tamanha dedicação do povo; e sob capa, servindo-se de um talento fascinador mas tão lamentavelmente palaciano (o padre António Vieira), contraminava a obra da Restauração e a despeito de cláusulas especiosas, vendia a Pátria a Castela.»Já desde pelo menos a década de 70 do século XV, quando D. Afonso V celebrou esponsais com a sua sobrinha Joana, a Beltraneja, presunçosa herdeira do trono de Castela por morte de seu pai Henrique IV, que se registam intermitentes diligências sérias do poder político português no sentido da União Ibérica.
Não admirará portanto que na actual conjuntura um qualquer poder político português retome esse projecto da União Ibérica, que é afinal um regresso às origens. Mas quem o fizer terá fundamentalmente o mesmo objectivo de D. João IV: aumentar o seu poder e os seus cabedais.
A mim me parece que Mário Soares fica bem nessa fotografia. Além de que já só lhe resta vender Portugal."É um outro ponto de vista que muito respeito, e que vem enriquecer ainda mais esta discussão que será que realmente D. João IV lutou pelo país ou para seu próprio enriquecimento e gaúdio?
Eu pessoalmente, prefiro ser mais patriota (ou talvez poético) e acreditar que pode detrás dos objectivos pessoais (ainda actualmente estes existem nos nossos chefes de estado), D. João IV tenha tido por objectivo devolver a independência a Portugal!
Numa nota um pouco mais pessoal, acho ainda muito estranho que os reis mais conhecidos dos portugueses sejam D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. Sebastião ou D. Carlos... Não que isto seja estranho, só acho estranho que na história não se dê destaque a D. João IV, como Rei Restaurador! Mas isto são só meras opiniões!Por fim, não tenho nada contra Espanha!
Ao contrário do que a maioria dos comentadores tentou alegar, não foi de modo algum, um artigo anti-Espanha!
Penso ainda que temos (e só nos convém) que manter as melhores relações com Espanha, para à sua boleia, não perdemos o comboio da Europa!Mas que sou também da opinião de que Olivença deveria voltar à posse portuguesa, sou!A meu ver, ainda bem que há várias opiniões e divergentes, pois assim tornam as discussões mais agradáveis (desde que sejam feitas com respeito mútuo)!Por fim, A Restauração da Independência, foi um momento marcante da história de Portugal!
Um dos muitos momentos dos quais me orgulho de ser português!!!E infelizmente, com as condições actuais do nosso país, penso que será muito dificil voltar a conseguir tal feito!...
In O Restaurador em Dezembro de 2005

quarta-feira, novembro 29, 2006

Por ti, Vila Viçosa

À entrada de Vila-Viçosa, sobre a porta chamada do «Nó», erguida por D. João IV para comemorar a sua aclamação em 1640, insculpe-se em duas almofadas de mármore uma inscrição misteriosa, que encerra consigo o segredo de todo o esforço admirável da nossa Restauração. Reza essa inscrição no seu latim doutíssimo, lembrado talvez ainda dos acentos puristas de mestre André de Rezende:
HOEC EST FATALISNODORUM PORTA.JOANNESME NODO HESPERIOELIBERAT ENSE POTENSSOLVIT ALEXANDERNODUM UT REX IM-PERET ORBIREX MEUS UT REGISSCEPTRA LATENTISAGAT.ANNO 1654.
Eis agora a tradução, segundo as melhores autoridades: - «Esta é a fatal porta dos nós. João poderoso, livra-me com a espada do nó da Espanha. Desfaz Alexandre o nó para imperar como rei na redondeza da terra: o meu rei o desata para empunhar os ceptros do Rei encoberto. Ano de 1654.»
Como monumento público à crença nacional na vinda do Desejado, não conheço outro mais expressivo. Na equilibrada dicção do epigrafista palpita, com verdade, a flama profunda que animou a resistência da alma colectiva contra a tentativa absorcionista de Castela. As iluminações proféticas do Padre António Vieira, as mil esperanças anónimas espalhadas no povo, ainda o elevado sentido duma predestinação mística, conferida por Deus a Portugal, em que vibram unânimes as peças jurídicas com que diante das cortes estrangeiras os nossos diplomatas e tratatdistas defenderam o direito da nossa nacionalidade à sua independência - nada, em resumo, é comparável à lápide comemorativa de Vila-Viçosa.(...)
Por ela, o próprio Estado confessava a legitimidade do Sebastianismo, por ela o próprio monarca se tinha como herdeiro dos ceptros do Encoberto, sceptra Regis latentis. Na singeleza daquelas tantas parelhas latinas se condensa a história toda do profundo movimento nativista que no século XVII nos levantou em massa, como um só homem, perante o espectro, indubitavelmente temeroso, da monarquia do Escorial [dos Habsburgo]. Interpretá-la é refazer a psicologia dos bons avós de Seiscentos que, por meio da espada e da pena, abriram outra vez lugar a Portugal no concerto das nações europeias. Consola-nos, como prova do vigor da raça, recordar semelhante epopeia, tão desvirtuada pelas diatribes romântico-revolucionárias dos nossos historiadores, que, ao abordarem o assunto, apenas escutam a voz do seu ódio à Companhia de Jesus e à dinastia de Bragança.”pp. 250-251.
[D. António prior do Crato] “Não se vendeu a Filipe, porque, subindo sempre de ambição, ia subindo sempre de preço. A sua índole, - a natureza dos seus sentimentos, mostrava-se de tal modo que, tendo sido seu mestre o virtuoso D. Frei Bartolomeu dos Mártires, nós sabemos com que afinco o prelado se opôs a que o proclamassem rei em Braga, - na sua cidade arqui-episcopal. De resto, já Rebelo da Silva, sem maior conhecimento da documentação existente nos fundos diplomáticos do país vizinho, nos deixa entrever a doblez do bastardo do infante D. Luís.”pp. 262-263
“Cingindo (…) a coroa por uma catástrofe sem igual na nossa história, o Cardeal-Rei [Cardeal D. Henrique] sufocou a sua preferência pela duquesa D. Catarina, olhando à desgraça em que Portugal se encontrava, totalmente incapacitado de resistência diante do colosso espanhol. À roda dum trono prestes a vagar, fervia a intriga, enquanto a miséria aumentava no Estado e na colectividade.”p. 263“Mal a vida se lhe extinguiu [Cardeal-Rei D. Henrique], o torpel dos vivos cresceu de violência. Em Portugal, essa hora de alucinação colectiva não achou ainda o seu verdadeiro historiador. (…) Reputo mesmo um vastíssimo serviço prestado ao futuro de Portugal a revisão escrupulosa de tão acidentada época histórica. Ela nos manterá, por um lado, na fé imperecedora de que a raça portuguesa se retempera e redime na desgraça e, por outro, na certeza não menos fortificante de que de forma alguma caímos no cativeiro ou na escravidão, ao transitar para as mãos da dinastia filipina o ceptro de Afonso Henriques. Se perdíamos «rei natural», a culpa não era só da ambição de Filipe. Colhiam-se as consequências da política peninsular da casa de Avis, que, em seguida à nossa consolidação em Aljubarrota, sonhou com a coroa unida de Portugal e Castela. Fala-se a todo o momento dum “perigo espanhol”. Mas ninguém se lembra de que houve também para com Castela, um “perigo português”!pp. 265-266
“Já no crepúsculo, a ideia universal de Cristandade recebia com a separação de Portugal o seu golpe de morte. Baseada no consenso unânime de «Respublica-Cristiana», a Europa vivera em sociedade internacional, debaixo do patrocínio augusto de Roma, até que o cisma de Lutero rasgou sacrilegamente a túnica sem costura de Jesus. Embora dentro do grémio da Igreja, a França alia-se ao Turco contra Carlos V, pondo em ameaça os destinos da fé e da civilização. Conjugada por parentesco e identidade de vistas políticas aos desígnios do império austríaco, a Espanha filipina assume então na Europa o papel grandioso de refazer a Cristandade despedaçada.
(…)"Mas o individualismo ia vencer tanto no instinto das nações como nas directrizes dos Estados. Enquanto o sábio paralelismo da centúria de Quinhentos se manteve de pé afiançado pela colaboração espontânea dos dois reinos amigos, a vocação da Península no mundo pôde cumprir-se. Agora que as duas metades se voltavam em adversárias irreconciliáveis, a Península teria que sucumbir necessariamente à conspiração que a Europa inteira urdia contra ela. Outro não é o sentido patético de D. Quijote, batendo-se dramaticamente por sonhos e aspirações que ninguém já quer – que ninguém já entende! O desastre consuma-se por fim em Westefália. Ali o Papado, como pacificadora força de coordenação política, desaparece por completo na sombra. Com ele desaparece a Espanha, como potencia europeia – como braço direito da Igreja. O conceito espiritual de Cristandade vê-se substituído pelo egoísmo nacionalista de cada Estado (…). Separados da Espanha, e agora num duelo irreparável nós contribuímos não pouco para o desastre total de Westefália. Mas o imperialismo do Conde-Duque [Olivares], lógico sob o aspecto do castelhano, impelira-nos para o único caminho em que a nossa salvação, como pátria, se tornava possível.”pp. 275-276
“Desde que nos recordemos que em manifestos de responsabilidade, como a Lusitânia liberata, de António de Sousa de Macedo, rutilam os clarões da estranha auréola sebástica, decerto que se apossa logo de nós uma outra compreensão do assunto. Os nossos doutores e panfletários da Restauração são na Europa os precursores das modernas doutrinas nacionalistas, tão vigorosamente sustentadas por eles, que de Suárez e mais comentadores da Contra-Reforma, haviam recebido o conceito tomista do «pacto». Só por este aspecto, o século XVII é o século para cujo estudo eu chamo a atenção dos que pensam.”pp. 279-280
“Porque se esterilizou então o esforço que parecia restituir-nos o antigo e perdido primado dos «barões assinalados» do Épico [Camões]? Pelo mesmo motivo de que, dissolvido o conceito internacional de Cristandade, nós nos sumíamos na sombra, envoltos no mesmo destino em que a Espanha se afundava, esmagada.”(…)“Colhiam-se os frutos de se haver trocado pela quimera insensata da monarquia-ecuménica o prudente e fecundo paralelismo em que Portugal e Castela sabiamente viveram no formidável labor apostólico do século XVI!”pp. 280-281…
“1640 não representa nem deve representar uma causa de ódio ou de reivindita contra a Espanha. Aos mesmo tempo que nos ensinava a ter confiança nas nossas qualidades criadoras, aponta-nos o caminho a seguir nas relações peninsulares. Corrigenda sanguinolenta ao erro político cometido pela aspiração imperialista tanto da casa de Áustria, como mais atrás, da casa de Avis, fortifica-nos na convicção que a unidade da Península é uma UNIDADE ESPIRITUAL, garantida pela acção concorde de duas soberanias políticas, - a espanhola e a portuguesa. Que fomos nós, a partir da Restauração, embora o mistério do Encoberto se houvesse revelado e se chamasse Portugal-Restaurado? Fomos pelo mesmo conjunto de circunstâncias porque a Espanha nada foi também. Porque, divorciados da obra grandiosa que realizáramos ombro a ombro pelos quatro cantos da terra, nem já nos elevava acima das dissídias mútuas a ideia que nos Lusíadas palpitava: - nos Lusíadas, como bem o marcou Oliveira Martins, «testamento de Espanha», mas duma Espanha que, sendo camoniana, tanto era Castela como Portugal. Ressurgem hoje do conflito trágico das Nações os líneamentos esquecidos do Hispanismo, despertados pela voz juvenil da América maravilhosa.Congracemo-nos, ajoelhados diante da lembrança das desgraças e pecados recíprocos. O Encoberto, corporizado no milagre sempre vivo da Restauração, é o Encoberto do Quinto-Império pacífico de Espanha e Portugal, fundadores de nacionalidades, pioneiros da única civilização possível. E se ao abraço reconciliatório o demoram ainda susceptibilidades dolorosas, decida-nos, por nosso lado, a memória de D. Luísa de Gusmão, que sendo uma Medina-Sidónia, nem por isso deixou de ser um dos obreiros mais eficazes do Portugal-Restaurado!”pp. 281-282
António Sardinha, “1640” in À Lareira de Castela, Lisboa, Edições Gama, 1943, pp. 249-282.
A Porta dos Nós é só um dos variadíssimos monumentos que esta vila tem no seu vasto espólio. Na verdade, a nossa terra, Vila Viçosa, é um museu vivo, um livro de história aberto e pleno de episódios marcantes e decisivos da nossa História, a de Portugal e a do Mundo.
Com orgulho nesta terra, surge este blogue conjunto de calipolenses de gema, sejam filhos legítimos destas Terras de Mármore, quer adoptados por ela.
Sejam bem-vindos a este espaço de debate e opinião sobre a Vila.
Alertamos ainda para o facto deste blogue ainda estar em construção, como tal, não estranhe as eventuais mudanças.